terça-feira, 17 de outubro de 2017

Desinformação e Aquecimento Global - um exemplo prático com o gelo da Gronelândia

Num post recente sobre o aquecimento global apresentei alguns vídeos de potholer54. Nos comentários desse post o comentador JF sugeriu um vídeo com uma entrevista de Jô Soares ao climatologista Ricardo Augusto Felicio.

Ao fim dos primeiros 5 minutos não precisei de continuar a ver a entrevista. Os erros foram tantos e tão crassos que não tive qualquer interesse em continuar. Claro que quem não é especialista em climatologia poderia perfeitamente acreditar naquelas afirmações, por falta de informação e conhecimento sobre a literatura do tema e os dados empíricos. Mas esse não era obviamente o caso de Ricardo Augusto Felicio, que tem informação suficiente para ter noção dos dislates que apresenta, não estando, portanto, de boa fé.

Um dos erros mais gritantes do climatologista foi a afirmação de que o nível das águas do mar não tem aumentado (as medições desmentem o climatologista). De seguida,  afirmou que seriam precisos 20º para derreter todo o gelo da Antárctida. Como se o gelo da Gronelândia e a própria dilatação térmica da água em estado líquido não fossem também um problema gravíssimo que nos deve fazer soar os alarmes muitíssimo antes dos 20º (os 2º já seriam catastróficos).

 Quando escrevi isto mesmo em resposta ao comentador, JF afirmou:

«No ponto 3 por si redigido faz referência ao gelo na Gronelândia, e após assistir ao vídeo que sugere através do link que apresenta, podemos ter uma ideia das terríveis consequências do derretimento na Gronelândia; porém o Danmarks Meteorologiske Institut (Instituto Meteorológico da Dinamarca) comprova que desde 2012 a situação tem melhorado com o aumento da extensão do gelo e consequente renovação da mesma, o que transforma esta evidência em mais uma vitória contra a tenebrosa ameaça do aquecimento global.»

Esta resposta é particularmente impressionante, porque aparenta um conhecimento detalhado do campo científico em questão e das medições que vão sendo efectuadas. No entanto, esta resposta apenas mostra o poderoso efeito da propaganda, e a sua influência sobre algumas pessoas menos informadas. Eis o que é que o próprio Instituto Meteorológico da Dinamarca mostra:


Como se pode ver, não existe um aumento da extensão de gelo, mas uma redução. Mas nesse caso, porquê esta alegação tão específica? Certamente o JF acreditou mesmo na alegação de que o dito instituto tinha revelado um aumento da área coberta por gelo. Compreender esta confusão é compreender melhor as tácticas sujas da propaganda que manipulou pessoas como o JF a duvidar do consenso científico sobre esta matéria. Potholer54 tem um excelente vídeo sobre este assunto:



Depois de apresentar estes vídeos e estes dados, não vi mais nenhum comentário de JF sobre este assunto. Mas eu afirmei que esta confusão merecia um post, e aqui está ele. 

6 comentários :

  1. João Vasco,

    Obrigado pelos vídeos. São bons e bastante esclarecedores. É o resultado de um «TPC» que as pessoas na generalidade não fazem.

    Contudo, aviso-te já que por mais esclarecedora que seja a ciência sobre as alterações climáticas, continuará a haver inúmeras pessoas que não «acreditam» nela. A questão é de fundo. Não acreditar na ciência é real. Existe isso. Não é universal que a ciência é entendida como forma de obter conhecimento e saber verdades, mesmo em assuntos científicos. Sabes muito bem que assim é. Outros exemplos disto são outras teorias científicas, como por exemplo a da Evolução das espécies. Não interessa explicar muito mais a ciência disto. Quem o nega, quem não acredita, não o faz com argumentos científicos, fá-lo por ideologia, crença, interesse pessoal ou profissional ou, talvez maioritariamente, por não perceber uma de duas coisas:

    a) Assuntos científicos (como o é claramente a descrição e estudo de como o clima da Terra funciona, daí chamar-se climatologia), são para ser discutidos cientificamente. Não interessa o que diz o meu melhor amigo super-credível-sabichão-sei-de-fonte-segura lá da taberna, do clube de futebol, das manhãs da Júlia ou que fuma umas ganzas e fica iluminado. Não percebem que isto não é matéria opinativa e não percebem que isto é assunto de especialidade. Ninguém opina sobre se 1+1=2 e isto da ciência do clima vai na mesma linha: é física, química etc. mas infelizmente as pessoas não percebem isso e acham que é um assunto opinativo exotérico como o avistamento de fantasmas e o estudo de actividades paranormais, ou se o quadro do Da Vinci é ou não giro, ou se a cor das calças na montra é verde seco ou oliveira, ou se gosto mais da miúda A do que da B. Esse são outro tipo de verdades (ou não) não-científicas.

    b) Pior que isso – pessoas que reservam-se o direito de achar que os resultados da ciência consolidada são matéria de crença. É como se eu pudesse afirmar que «eu acredito que 1+1=2». Mas esta frase não faz obviamente sentido porque 1+1 é de facto igual a dois e não faz sentido eu ser chamado a acreditar ou não nisso. Não é uma questão de fé, é uma relação/verdade abstracta.

    Muitas pessoas não percebem como é que funciona a ciência e o método científico. Se não percebem é normal que não a tomem como uma fonte credível de se obter conhecimento e de se saber a verdade.

    Muitas pessoas não percebem a diferença entre a apresentação de teorias, hipóteses e conclusões fundamentadas em dados, evidências e factos, da apresentação de opiniões, crenças, superstições etc. E como põe tudo no mesmo prato para qualquer assunto que seja, indiscriminadamente, então é normal que se reservem o direito de não «acreditar» em teorias como a das alterações climáticas. E o facto de a teoria conter declaradamente um certo grau de incerteza em algumas das suas premissas (o que é normal, dada a complexidade do assunto e a falta de tempo e dados consolidados), não é suficiente para que a climatologia seja tratada como uma não-ciência.

    Mas mesmo os que entendem como funciona a ciência e o método científico, e de entre eles, os bem-intencionados que procuram saber a verdade sobre como funciona o clima da Terra, mesmo eles podem incorrer numa série de dúvidas quando o assunto é da complexidade tremenda que é perceber como funciona e muda sistema climático da Terra.

    Ou seja, o equívoco pode ser primeiramente 1)METODOLÓGICO - não perceber que para o assunto das alterações climáticas, as fontes de informação são as da ciência consolidada, não outras não-científicas como sejam religiosas, artísticas, humanísticas, ou qualquer outra), mas pode ser também um equívoco 2)LÓGICO-RACIONAL-ARGUMENTATIVO – quando não se percebe que para se falar de alterações climáticas é preciso apresentar dados, estudos e resultados, e não meramente opiniões, e por último, o equívoco pode também ser resultado da 3)FALTA DE INFORMAÇÃO ou da INFORMAÇÃO ERRADA/INCOMPLETA, que resulta em conclusões erradas.

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  2. A negação ou tomada de posição sobre as alterações climáticas unicamente com base em ideologia política não conta sequer como um equívoco porque é deliberada ou então trata-se de um equívoco do tipo 1 – Metodológico (como quem diz, a ideologia política é que serve para estudar o clima).


    O que é triste é que esta ausência de «método científico para assuntos científicos» é generalizada e persiste mesmo em grande parte daqueles que «acreditam» nas alterações climáticas (como se fosse assunto de se acreditar ou não, que não é – é assunto de se verificar se é ou não é, tal como 1+1=2, quer acreditemos quer não). Ou seja, muita gente que acredita nas alterações climáticas não conta. Fá-lo por crença/opinião não fundamentada/bitaite. São fáceis de enganar e de mudar de opinião porque baseiam-se em premissas erradas (ou nenhumas).

    E, deixa-me que te diga (em tom de crítica a este blog) não é preciso ir longe para se encontrar todos estes tipos de pessoas equivocadas (casos 1, 2 ou 3) ou mesmo as que deliberadamente escolhem apregoar a falsidade: é que neste blog e nas discussões que já fui tendo, houve vários intervenientes que claramente não perceberam que mesmo em assuntos económicos e políticos é preciso apresentar-se e basear-se em dados, factos, evidências, indicadores, etc., para se defender uma posição ou outra. Já fui confrontado aqui no Esquerda Republicana com pessoas que ou não percebem que é diferente apresentar uma conclusão/opinião fundamentada e referenciada com dados e indicadores factuais, da mera emissão de opinião ideológica que não bate certo com as evidências (equívocos do tipo 2). E depois, também há os que apesar de reconhecerem que existem estas evidências, indicadores e estudos, escolhem mesmo assim «opinar» no sentido oposto, o que cai no caso do equívoco do tipo 1. Quanto aos equívocos do tipo 3, esse não me chateiam porque quanto a esses estamos todos sujeitos e só é pena as pessoas não o reconhecerem. Mas para isso é que serve o blog.

    Por isto tudo, concluo que para além de se tentar esclarecer as pessoas da ciência das alterações climáticas, é importante que os que as reconhecem e acham que é preciso actuar usem as mesmas armas que os «cépticos» (entre aspas, porque na verdade são «não-crentes»). Os cépticos não usam argumentos científicos porque não os têm para usar. Então usam populismo e desinformação, que ganha tantos apoiantes quanto a ciência ganha. Não há volta a dar: se no mundo há milhões de pessoas que não entendem que são os argumentos científicos que devem prevalecer no assunto das alterações climáticas, é preciso convencê-las de qualquer outra maneira. Portanto tudo o que seja populismo e conversa de taberna, se faz favor comecem a opinar que «acreditamos nas alterações climáticas, porque sim». É estúpido mas é necessário.

    Boa sorte.

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  3. Climatologia: a CIÊNCIA que estuda o clima.
    Não é a arte que estuda o clima.
    Não é a religião que estuda o clima.
    Não é o jogo/a aposta que estuda o clima.
    Não é a adivinhação ou a astrologia que estuda o clima.
    Não é a política que estuda o clima.
    Não é a economia que estuda o clima.
    Etc. etc.

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  4. E também não é a moda, que estuda o clima (sei que alguns acham que isto das alterações climáticas é uma moda).

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  5. Senhor Animalesco:

    Parece-me que estamos mesmo de acordo no fundamental.

    Ainda assim, quer fazer umas observações:

    1) Em Portugal poucas pessoas argumentarão contra o ponto 1. Existe, infelizmente, uma forma usada para lhe dar a volta. É que a partir do momento em que existem muitos cientistas, o consenso nunca é total. Há alguns físicos que rejeitam a teoria da relatividade restrita, ou o big-bang, ou qualquer outra teoria aceite pela generalidade dos académicos da área. Vai daí, "ah o Galileu e tal", a ciência não depende de consensos, e portanto aquele «"documentário"» muito convincente em que o cientista X mostra muito claramente que o consenso generalizado esta errado mostra um "Galileu dos nossos dias" contra o status-quo parado no tempo.
    Em relação a este ponto, prefiro dizer que um especialista (como Galileu) deve avaliar os argumentos científicos pelo seu mérito, e ignorar o consenso, é verdade. E as discussões entre cientistas devem sempre ignorar o argumento da popularidade, centrando-se na interpretação adequada dos dados e indícios.
    Mas isto é apenas válido para os ESPECIALISTAS. Nós, cidadãos, que não nos podemos tornar especialistas em todos os campos científicos, temos de recorrer a HEURÍSTICAS. E neste caso, devemos sim recorrer ao argumento da popularidade de de uma ideia científica entre especialistas nesse campo, pois não há nenhuma forma melhor que essa de ter crenças que correspondam o melhor possível à realidade sem ser especialista em todos os campos do saber (o que é impossível). É verdade que, usando essa heurística, teríamos falhado em não acreditar em Galileu durante umas décadas, eu em qualquer ideia nova logo que surgiu. Mas é bem melhor do que deixar os melhores "relações públicas" convencerem-nos sempre de quem é o "verdadeiro Galileu" e tornarem a percepção pública da ciência mais dependente do orçamento em comunicação de think tanks com objectivos obscuros (motivações políticas, económicas, etc..) do que da posição dos especialistas.
    Uma outra recusa do consenso generalizado que é apresentada é a ideia pós-modernista de que as ideias resultantes das estruturas científicas não convergem necessariamente para realidade exterior, mas dependem também de um conjunto de fenómenos económico-sociais que podem criar todo o tipo de enviesamentos. Esta ideia até pode fazer algum sentido em abstracto, mas acaba a ser usada de forma extremamente arbitrária para recusar - de forma muito "conveniente" - precisamente as ideias científicas que o seu utilizador desgosta.
    São as pessoas que acreditam que os climatólogos estão "incentivados" a exagerar as ameaças para o clima para conseguir mais financiamento (o que curiosamente esbarra com o facto da NASA ver o seu orçamento sob ameaça pela razão contrária...) mas não põem em causa as motivações dos "Galileus" pagos pela indústria fóssil.


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  6. «E, deixa-me que te diga (em tom de crítica a este blog) não é preciso ir longe para se encontrar todos estes tipos de pessoas equivocadas (casos 1, 2 ou 3) ou mesmo as que deliberadamente escolhem apregoar a falsidade: é que neste blog e nas discussões que já fui tendo, houve vários intervenientes que claramente não perceberam que mesmo em assuntos económicos e políticos é preciso apresentar-se e basear-se em dados, factos, evidências, indicadores, etc., para se defender uma posição ou outra.»

    Eu não sei ao certo a que é que te referes (acho fácil encontrar pessoas que caiem nos equívocos 1 2 ou 3, seja neste blogue seja noutro contexto qualquer), mas quero fazer uma distinção importante.

    Eu faço investigação em economia, e estou bem consciente que é uma área onde existe muito pouco consenso. Continua a ser importante saber o que os especialistas pensam (e aborrece-me o desdém generalizado e injusto que as pessoas têm por esta área, em parte porque confundem as pessoas que vão aos órgãos de comunicação social fazer propaganda ideológica com representantes do universo académico em economia), mas não há nenhum tema em economia em que consenso seja tão generalizado como é entre climatólogos a respeito do impacto da actividade humana na temperatura.
    Por isso, estas questões não estão bem na mesma categoria.

    E se é assim em economia, ainda mais o é em ciência política, etc.

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