domingo, 8 de janeiro de 2017

Na morte de Mário Soares

Sucedeu-me há poucas semanas, numa das minhas viagens no Intercidades. Topei logo a pinta do homem quando me dirigia ao meu lugar e verifiquei que estava ocupado por uma senhora de idade, com muita bagagem (na verdade ocupava dois). Sem nos deixar (a mim ou à senhora) abrir a boca, "destinou" logo que eu deveria sentar-me noutro lugar que não o meu. Sem lhe responder, acabei por fazer isso porque a senhora mo pediu, e não pela sua ordem.
O homem falava alto. O seu interlocutor não o conhecia, mas ele era do género que gostava de meter conversa com quem estivesse ao lado, para que os outros o ouvissem. E eu sem ir ao lado dele tive de o ouvir a dizer que a guerra "do ultramar" não estava nada perdida, os portugueses não tinham nada de ter abandonado as "províncias ultramarinas", e os capitães de Abril eram "uns traidores".
O seu interlocutor à força, enfadado com o companheiro de viagem que lhe calhara, deu-lhe uma resposta simples e lógica: "Pois, os outros países todos já tinham saído de África, e nós éramos os únicos que iam lá ficar com um império. Éramos os maiores."
O nosso homem nem lhe responde. Nem argumenta. Muda completamente de assunto - mas na cabeça dele não muda: tudo era exatamente a mesma coisa:
"Você sabe quanto é que o Estado português gasta na segurança da casa de praia do Mário Soares?"
O outro senhor ainda tentou ripostar: "você acredita em tudo o que lê?" Mas levou com um "Em Portimão toda a gente sabe." Deve ter-se sentido muito aliviado por o homem ter saído no Entroncamento.
Todos os portugueses já devem ter presenciado conversas destas. São conversas como a deste homem que fazem com que Mário Soares, concorde-se ou não com ele (e era perfeitamente possível não concordar com ele), tenha sido, como nenhum outro, o português que melhor permitia detetar quem não prestava. Quer saber se um português não presta? Ponha-o a falar sobre o Mário Soares.