domingo, 3 de janeiro de 2016

Arábia Saudita: a raiz do mal

A Arábia Saudita começou o ano executando quarenta e sete pessoas num único dia. As primeiras notícias eram dadas assim, sublinhando o número de assassinados (http://www.publico.pt/mundo/noticia/arabia-saudita-executa-47-pessoas-condenadas-por-terrorismo-1718957). Passadas horas, o destaque era dado a um dos executados, um clérigo xiíta, por ter liderado protestos contra a monarquia saudita. Há boas razões: na guerra quente entre Arábia Saudita e Irão que assola a região, por interpostos actores (no Iraque, Síria ou Iémene), não é despiciendo que tenha sido executado o líder da oposição interna xiíta. Qualquer protesto pode ser considerado alinhamento com o Irão. Por outro lado, a maioria dos executados eram membros da Al-Qaeda. O jogo é muito complexo, mas há pontos incontroversos.

Primeiro: a Arábia Saudita há muitos anos que é um dos Estados do mundo que mais pessoas executa per capita, só comparável ao Iraque, ao Irão e à China.

Segundo: estas execuções são islamicamente correctas. O ministro do Interior anunciou-as citando versos do Corão. E o Grande Mufti saudita seguiu-se na televisão dizendo que são «justas». Se fosse o «Estado Islâmico», o coro habitual diria que isto nada tem a ver com o Islão. Sendo a Arábia Saudita, não há descaramento suficiente.

Terceiro: a Arábia Saudita é o Estado mais problemático do nosso século. Exporta terrorismo (Al-Qaeda, Estado Islâmico), fomenta guerras regionais (Iraque, Síria, Iémene), oprime ferozmente a quase totalidade da sua população (mulheres, xiítas, irreligiosos, sunitas moderados). A Arábia Saudita tem que ser isolada diplomática, política e economicamente, e sujeita a sanções até mudar como se fez com a África do Sul.