sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Homofobia contra governofobia

A aprovação de um referendo ao direito de determinadas pessoas poderem formar família é uma página vergonhosa da democracia portuguesa. Direitos individuais não se referendam, muito menos um direito tão fundamental como o de formar família. Registemos para o futuro que só foi possível este proto-referendo por o Parlamento português ser dominado por uma ditadura das direcções partidárias, e por a JSD ter decidido criar uma manobra de diversão que permita ao governo respirar.

Se o Tribunal Constitucional aprovar o referendo, o que não é certo, Cavaco terá nas mãos uma batata quente: ou alinha com o despesismo num referendo a direitos fundamentais, ou dá reguadas públicas aos seus netinhos da JSD. Em qualquer dos casos, agravará as tensões internas do seu PSD.

A haver referendo, a direita, presumivelmente, esconder-se-à atrás da tropa de choque dos movimentos católicos conservadores. Dirão que não se trata de uma questão esquerda/direita (como aliás o provam as numerosas declarações de voto e ausências na bancada do PSD e a abstenção do CDS). E portanto que estão a deixar espaço para a «sociedade civil» debater. Evidentemente, o cálculo cínico da JSD, alegadamente apoiado por «altos dirigentes do PSD», será: desviar o debate público da crise social e económica, possibilitar uma derrota nas urnas da «esquerda», e travar o projecto da co-adopção. Não sei qual destes três factores será mais importante na cabeça de quem decidiu isto, mas ficou claro hoje que o próximo Parlamento com maioria de esquerda aprovará a adopção, e que no meio desta politiquice a governofobia pode ser mais importante do que a homofobia no momento de votar.


As crianças? Não têm nada a ver com isto. O que se passou hoje foi política politiqueira.