segunda-feira, 8 de julho de 2013

O casamento perfeito do neoliberalismo e do clericalismo

Após uma semana alucinante, no domingo reuniram-se todos para a missa: o pífio Pedro, o irrevogável Paulo, o mudo Aníbal e a Assunção. Porquê? O oficiante do ritual cripto-necrófago (o sr. Clemente) dissera no dia anterior, ainda antes de ser conhecida a rendição de Pedro e a revogação de Paulo, que recusava eleições, que queria «estabilidade»; e hoje acrescentou que «pelos responsáveis pelo governo da nossa pátria, oremos irmãos» (tudo devidamente transmitido pela RTP, claro).

Não houve, desde o Estado Novo, um governo tão anti-social como este. E não houve, desde o Estado Novo, um governo tão apoiado pela igreja católica portuguesa. Os exemplos abundam: na crise da TSU e perante a primeira grande manifestação, o Policarpo apelou a que não houvesse manifestações (não apelou a que os reformados tivessem uma pensão justa); quando se preparava a manifestação de Março, acrescentou que a sociedade portuguesa «aguenta tudo» - e falava da austeridade; o mês passado, durante a greve de professores que fez recuar Nuno Crato, Clemente apelou a que os professores parassem com a greve (não apelou a que Crato ponderasse); este fim de semana, abençoou a surreal «solução» governamental que segundo as sondagens tem o apoio de um terço do eleitorado. Não sugeriu eleições, o que está de acordo com a sua formação: não chegou a bispo por eleição dos católicos de Lisboa, mas sim por nomeação de um ditador estrangeiro (a quem já jurou obediência). Todavia, sendo um cidadão português de 64 anos, Manuel Clemente viveu a maior parte da sua vida em democracia. Poderia ter aprendido qualquer coisa. Infelizmente, é muito católico e nesta crise pensa principalmente no que a sua igreja pode lucrar.

Já o disse e repito: o neoliberalismo e o clericalismo fazem um casamento perfeito. O neoliberalismo destrói o Estado social, a caridade católica «acolhe-os» com hóstias e um sorriso cínico; no fundo, quanto mais pobres e miseráveis houver, melhor para a ICAR. É a isto que Clemente chama uma sociedade «que procura o bem comum», e Passos um «Estado magro». Serve aos dois. Só espero que desta vez a esquerda  (toda) aprenda a lição e entenda de que lado está e estará sempre a ICAR.