quarta-feira, 8 de junho de 2011

A culpa não é de Passos Coelho nem de Portas

Repetidamente se escuta ou lê, por parte de dirigentes do Bloco e do PCP (especialmente este último), que grande parte dos eleitores que agora votaram no PSD rapidamente deixarão de apoiar o governo, assim que as suas medidas começarem a ser postas em prática. Neste caso concreto não têm razão nenhuma pois, como afirma (exultante e com razão) o João Miranda, o programa da direita era bem claro. O povo não pode dizer que foi enganado. Daqui só há três atitudes a tomar. A primeira é aceitar que a vontade do povo é a de implementar um programa ultraliberal. A segunda é contestar tais medidas na rua porque “o povo foi enganado”. Tal paternalismo é típico da esquerda, mas equivale necessariamente a achar que o povo é estúpido ou, no mínimo, inconsciente. Tal deveria ser dito claramente, e é isto que, infelizmente, nenhum partido faz. (Por exemplo, teria ficado bem a José Sócrates, há seis anos, quando foi eleito com maioria absoluta, ter prevenido que muitos os que nessa noite o aclamavam seriam os que contra ele iriam protestar daí a uns meses.) A terceira hipótese é contestar porque se é abertamente contra a democracia parlamentar em que vivemos (é o caso de diversos elementos do Cinco Dias).
Convinha que quem se prepara para abrir mais uma época de contestação popular (nomeadamente o Bloco e, especialmente, o PCP) esclarecesse em qual das três hipóteses se encaixa. Da minha parte a hipótese 1) é inexorável e indesmentível. Se vier a tomar parte em contestações de rua, faço-o na hipótese 2: como diria um professor meu, “consciente da inconsciência do povo”.

5 comentários :

  1. Um link que podias ter incluído nesse texto:

    http://arrastao.org/2275707.html

    Completamente de acordo.

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  2. Filipe,
    Não existe «povo». Existem cidadãos e cidadãs com ideias muito diferentes. Que votam em projectos opostos e até contraditórios. Os cidadãos que decidiram estas eleições foram o meio milhão (são muitos, pois é...) que passaram do PS para o PSD. Aderiram subitamente ao mega-ultra-hiper-neoliberalismo? Não acho. Queriam, na maior parte, ver-se livres do Sócrates. Simplesmente. Isso retira legitimidade ao PSD para aplicar o seu programa? Apenas na medida em que serão forçados a negociá-lo com o CDS.

    Por outro lado, a Constituição não fica anulada com uma simples maioria conjuntural. E não tenho a certeza de que o que querem fazer à saúde e à educação seja inteiramente compatível com a letra da Constituição.

    Finalmente: há sempre o direito de contestar, desde escrever em blogues até ir com bandeiras contestatárias aos comícios do PSD (como foi feito em iniciativas do PS recentemente). E não é por se estar na minoria das recentes eleições que se perde esse direito.

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  3. "Os cidadãos que decidiram estas eleições foram o meio milhão (são muitos, pois é...) que passaram do PS para o PSD. Aderiram subitamente ao mega-ultra-hiper-neoliberalismo? Não acho."

    Ai aderiram, aderiram. Se julgam que não aderiram, como eu digo, ou são estúpidos ou irresponsáveis.

    "Por outro lado, a Constituição não fica anulada com uma simples maioria conjuntural. E não tenho a certeza de que o que querem fazer à saúde e à educação seja inteiramente compatível com a letra da Constituição."

    Tudo bem: aí, sim, creio que há uma base de contestação.

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  4. O meio milhäo aderiu a um claro e muy apregoado programa mega-ultra-hiper-neoliberal do PPC. para se livrar de Socras bastaria votar *fosse onde fosse* para além do PS, especialmente em quem quer uma soluçäo para o caos económico actual. E PPC é o aprofundar da crise.

    Vistas curtas? As vistas logo se lhes abriräo... dou-lhes 6 meses.

    Mas AGORA É TARDE!

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