sábado, 20 de fevereiro de 2010

Blasfémias, Sócrates e escutas

Apesar de acreditar que muito do que lá é escrito é equivocado ou mesmo disparatado, um dos blogues que vou acompanhando com regularidade é o Blasfémias.

Mas, a propósito do caso das escutas, vi lá dois textos que me pareceram certeiros. O primeiro é de Carlos Amorim:

«Face ao imparável declive ético e político de Sócrates, o PS atém-se a uma atitude de resguardo aperreado do poder pelo poder – o que condicionará o futuro do partido por muitos anos.
Se o PS mudasse higienicamente de líder ficaria em condições de enfrentar os desafios da governação de cabeça limpa e discurso tranquilo. Ao contrário, parece ter optado por se barricar no bunker que a falta de vergonha do seu Chefe tramou para si e para os que não têm pudor em serem comparados com ele.
Um Governo assim não governa coisa nenhuma, apenas gere de forma desconexa a sua morte adiada.
O PS pagará bem caro este apoio deplorável.
Em vez de ser o partido da liberdade e da democracia passará a representar o pior do regime – a malta de Sócrates, de Vara e do Soares da PT.
»

É verdade que o PS era, até recentemente, o partido da liberdade e da democracia. Antes da governação Sócrates, o pior dos abusos de poder, da governação de pendor autoritarista, das tentativas de controlo da comunicação social, era «propriedade» do PSD, com Alberto João Jardim como a cereja em cima desse bolo.

Mas o PS parece estar a abdicar desse património valioso, de defensor da liberdade e da democracia, na forma como se tem comportado perante esta situação. O texto do João Miranda esclarece aquilo que tenho visto a acontecer da parte do PS:

«Enfrentado o inimigo às arrecuas

Linha de defesa nº1: Não há provas de que as escutas existam. Pode ser invenção dos jornais.

Linha de defesa nº2: As escutas existem, mas escutar o Primeiro-Ministro é ilegal

Linha de defesa nº3: Pronto, também existem escutas aos boys do PS. Existem escutas legais, mas divulgá-las é violação do segredo de justiça

Linha de defesa nº4: Tá bem. O caso foi arquivado, as escutas podem não estar em segredo de justiça. Mas divulgar escutas é violação de privacidade

Linha de defesa nº5: Pronto. Eles não discutiam a vida privada. Pode ter interesse público. Se calhar não é violação de privacidade, mas as escutas estão descontextualizadas

Linha de defesa nº6: Ok. Tá bem. Não imagino que contexto é que desculparia aqueles fulanos. Mas que fique claro, isto foi tudo iniciativa dos boys do PS. O Sócrates não sabia de nada.

Linha de defesa nº7: Para alem do mais, todos os partidos fazem o mesmo. E se falássemos do caso BPN?

Linha de defesa nº8: Sócrates? Nunca me enganou. Fez muito mal ao país e ao PS.»



Alguém comentou: «Dentro do PS há muito que se anda a tocar a oitava, mas quem tem acesso às primeiras páginas é o grupo dos hotéis. Quanto menos transparente é um partido mais as pessoas se colocam numa linha de defesa de nível inferior à medida que se aproxima alguém do comité central.»

Espero que esses tenham falado alto e cedo. Parece-me que quem chega à oitava apenas depois de se terem esgotado as anteriores, perde, aos olhos de observadores descomprometidos, toda a credibilidade.

O PS não vai ficar eternamente no poder. E quando (não é "se", é "quando") o PSD tentar manipular e controlar a comunicação social, as críticas que o PS fará podem ser vistas como oportunismo político, como clubismo, como intriga partidária, ou ser vistas como críticas legítimas e justas de quem tem preocupação genuína pela liberdade de imprensa. É importante que a segunda opção prevaleça, esteja o PS ou o PSD no poder, para que o país não fique a perder. Mas para que isso aconteça é necessário que todos os envolvidos na monumental fraude que foi agora descoberta sejam exemplarmente castigados. E isto inclui Sócrates, quer ele tenha dado ordens directas aos seus colaboradores próximos, quer não o tenha feito. Ele tem responsabilidade política pelo que aconteceu, mesmo que em termos criminais esteja inocente.

O primeiro ministro tem obrigação de proteger a riqueza pública. Que seja gasto o dinheiro de todos nós para que Luís Figo declare o seu apoio a um partido (para dar um exemplo) é algo que nenhum militante do PS admitiria se o partido em causa fosse o PSD. Por favor, sejam coerentes e critiquem duramente (e publicamente) os responsáveis políticos pelo que aconteceu - não sacrifiquem a credibilidade das ideias que defendem em nome de uma táctica tosca, de curto prazo, de manutenção do poder.