terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Em busca do centro perdido

No Público de hoje, Vital Moreira argumenta que Manuel Alegre perderá os votos do «centro político», o que daria, inevitavelmente, a vitória a Cavaco Silva na eleição presidencial. O argumento assenta, implicitamente, numa premissa muito comum: a de que o «centro político» divide o eleitorado em duas metades. E no entanto, a verdade é que, nas eleições de âmbito nacional de 1995 para cá, raramente  a divisão do eleitorado em «esquerda» e «direita» se aproximou de duas metades (ou seja, raramente a mediana estatística esteve próxima do tal «centro político», entendido como o ponto entre o PS e o PSD).


Como mostra o gráfico, a votação total nas eleições presidenciais e legislativas, nos últimos 15 anos, foi quase sempre favorável à «esquerda» (há duas excepções). Em média, a «esquerda» teve três milhões de votos, e a «direita», 2.35 milhões. Quando a «direita» ganhou (nas legislativas de 2002 e na presidencial de 2006) foi por diferenças muito pequenas (respectivamente, por 49 mil votos e por 64 mil votos). As vitórias da «esquerda» foram sempre bastante mais amplas (no mínimo - a presidencial de 1996 - por 440 mil votos de diferença; em dois casos, por 1.3 milhão).
O que estes números significam é que não é impossível perder no «centro político» e ganhar a eleição presidencial. A manter-se a tendência dos últimos 15 anos, bastaria a Manuel Alegre ter 90% dos votos habituais da «esquerda» para vencer. O que torna tudo bastante mais interessante.