segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A traição de Obama

Gradualmente fui-me sentindo mais e mais traído pela postura de Obama.

Não pela sua moderação, eu próprio sou bastante moderado e aprecio isso. Mas pelo facto de condicionar toda a sua actuação à defesa dos interesses corporativos instalados.

Voltando costas aos que o elegeram, preferiu tentar a sua sorte para as próximas eleições com avultadas contribuições das seguradoras, mesmo que implique uma militância democrata menos motivada. Arrisca-se a perder.

Entretanto, as grandes seguradoras sorriem. Os cidadãos dos EUA estão a caminho de ser obrigados a adquirir um seguro de saúde ao preço que elas entenderem cobrar. E se antes já eram pouco gentís na hora de fixar os preços, agora têm ainda menos razões para gentilezas.

A opção pública foi desfeita, e aqueles senadores que tiveram a ousadia de ameaçar impedir a aprovação da reforma sem esta opção foram criticados pela casa branca com uma dureza de que o mefistofélico Joe Lieberman nunca foi vítima. Há que lembrar que este senhor - que nos anos de Bush era tão radicalmente contra os bloqueios no senado, que votava repetidas vezes para desbloquear propostas do GOP mesmo quando afirmava publicamente discordar das mesmas; e que ainda há cerca de três meses, com medo da opção pública, propunha o alargamento do Medicare para os 50 anos - manteve todo o processo refém dos seus caprichos, e foi capaz - derradeira falta de escrupulos e coerência - de ameaçar bloquear o processo se fosse mantido o alargamento do programa medicare para os 55 anos - sim, iria bloquear algo menos ambicioso que aquilo que tinha proposto 3 meses antes!

No que diz respeito à reforma financeira, McCain está a fazer mais pela defesa dos interesses do contribuinte norte-americano face aos interesses dos grandes bancos do que a casa branca. Na verdade, do senado e da casa dos representantes têm vindo propostas muito interessantes, sensatas e razoáveis para impedir que uma crise como a que aconteceu se repita. A casa branca tem sido o maior adversário destas propostas. E quando Obama é mais amigo dos grandes bancos que McCain, muito está dito.

Obama começou com o pé direito. Mas neste momento não passa de um traidor.
Oxalá acorde antes que seja tarde de mais. Por agora é a maior desilusão com um político que já tive.

5 comentários :

  1. pá, o Obama foi a dose de adrenalina de que o povão necessitava desesperadamente para não explodir de frustração. foi bom por isso, agradeça-se-lhe por isso. Quanto ao resto, um tipo que tem de ir a Israel dar graxa para não ser logo arrasado, está-se à espera de quê?
    Mesmo assim intriga-me o poder do fascistóide do Lieberman... o que terá o tipo na manga? Porque é que os democratas admitem que continue a apresentar-se como democrata um tipo que é obviamente um agente provocador republicano para desestabilizar os democratas? para não perderem um estado? beats me...

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  2. Vai perder e deve perder. A cada vez que teve uma oportunidade para ajudar a "Main Street", escolheu sempre o campo INIMIGO: Wall Street. Tanto o Partido Democrata e o Partido Republicano estão embricados e ao serviço da "corporate america". Os americanos começavam por fazer um favor a si mesmos fazendo desaparecer do mapa esse receptáculo de oligarcas corruptos que são esses dois partidos. E mudar um país que, como diz Paul Craig Roberts, "With stunning insouciance, Americans have given up the rule of law that protected their liberty. The silence of law schools and bar associations indicates that the age of liberty has passed. In short, the American people support tyranny. And that’s where they are headed." (ver em counterpunch.org).

    Mete-me mais nojo o Obama que o Bush. Com o primeiro, sabíamos com o que contar e não andávamos a ouvir histórias da carochinha. Com o Obama é só retórica e NENHUM conteúdo: em tudo decidiu proteger os crimes da admnistração Bush (dizendo que "não vale a pena olhar para o passado"), continuar com as mesmas políticas e , em alguns casos, indo mais longe no de que pior se pode fazer (continuação do TARP, "bailout" dos bancos, "indefinite detention without charges": vide a transferência dos prisioneiros de Guantánamo para a prisão de Thomson, Illinois: ou seja, de facto, quando Obama disse que ia fechar Guantanamo, mentiu). O Obama, o que é? Um traidor, um corrupto (nunca um candidato presidencial na história das eleições americanas recebeu tanto dinheiro das "corporations" quanto ele) e um mentiroso. Ah, e uma excelente "brand" que à custa de doses maciças de marketing meio mundo engoliu.

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  3. Mais sobre o Obama aqui:

    http://www.chris-floyd.com/component/content/article/1-latest-news/1887-dred-scott-redux-obama-and-the-supremes-stand-up-for-slavery.html

    Um gajo lê e não acredita. Apetece-me citar de novo o Paul Craig Roberts: "In short, the American people support tyranny. And that’s where they are headed."

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  4. Obama é melhor do que Bush no sentido em que é alguém inteligente, que sabe o que faz. E apesar de tudo não é um louco que acredita que Jesus falou com ele e mandou-lhe invadir países.

    Obama é pior do que Bush no sentido em que é um traidor que está a fazer pouco do seu eleitorado. Nesse sentido, Bush sempre foi bastante fiel ao seu eleitorado, dando-lhes aquilo que estes queriam.

    Já o eleitorado de Obama, apenas conseguiu mudar os discursos que o presidente faz. Já não existe a conversa do eixo do mal, o presidente a chegar num caça e todo aquela retórica deficiente. Mas as políticas continuam ditadas pelos grandes interesses económicos.

    No início ainda passou o pacote de estímulos, e as alterações fiscais, que ao menos fez recaír os cortes nos mais pobres e não nos mais ricos. Mas a tão propagandeada MUDANÇA acabou por aí. A reforma da saúde corresponde aos sonhos húmidos dos donos das seguradoras, e a reforma financeira é a prenda do Pai Natal para os grandes bancos.

    Vamos ver se, no mínimo, se vão julgar os alegados terroristas, e se a tortura acaba de uma vez por todas.

    Para saber se a montanha pariu um rato, ou um piolho.

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  5. O João Vasco está, como muita gente começa a estar, desiludido (e "desiludido", nestas ciscusntâncias, é mais um eufemismo que outra coisa) com um aldrabão chamado Obama.

    E, pelo que diz, ainda alimenta a esperança de que os alegados terroristas venham a ser julgados e que a tortura acabe de uma vez por todas.

    Ora, eu acho que nem nisso o Obama o vai satisfazer.

    Por exemplo, considere o excerto de um artigo que encontrei no site antiwar.com (link: http://original.antiwar.com/fisher/2009/12/15/us-guantanamo-prisoners-not-persons/):

    " In the wake of the U.S. Supreme Court’s refusal Monday to review a lower court’s dismissal of a case brought by four British former Guantanamo prisoners against former defense secretary Donald Rumsfeld, the detainees’ lawyers charged Tuesday that the country’s highest court evidently believes that "torture and religious humiliation are permissible tools for a government to use."

    The U.S. Circuit Court of Appeals in Washington, D.C., had ruled that government officials were immune from suit because at that time it was unclear whether abusing prisoners at Guantanamo was illegal.

    Channeling their predecessors in the George W. Bush administration, Obama Justice Department lawyers argued in this case that there is no constitutional right not to be tortured or otherwise abused in a U.S. prison abroad.

    The Obama administration had asked the court not to hear the case. By agreeing, the court let stand an earlier opinion by the D.C. Circuit Court, which found that the Religious Freedom Restoration Act – a statute that applies by its terms to all "persons" – did not apply to detainees at Guantanamo, effectively ruling that the detainees are not persons at all for purposes of U.S. law."

    Ou seja, ao que parece, à admnistração Obama a tortura é algo de legítimo quando se trata daquilo a que Bush&Co. chamaram a "War on Terror" - linguagem e atitudes que o (FDP?) do Obama continua, alegremente, a empregar.

    Mais adiante citam no artigo a opinião de Shayana Kadidal do Center for Constitutional Rights Senior Attorney:

    ""The way the case was defended is in some ways emblematic of the Obama administration’s waffling on national security issues," Kadidal noted. "On the one hand they recognize that torture is reprehensible, doesn’t work, and is universally condemned; on the other they don’t want to prosecute people who ordered, facilitated, or carried it out, and are actively seeking to eliminate other mechanisms for accountability like this case – anything that might lead to a court saying crimes were committed and innocent people were brutally abused."

    Este episódio não parece indicar grande vontade por parte do aldrabão em acabar com a tortura.

    Quanto ao julgamento dos alegados terroristas, considere o excerto de um texto de Glenn Greenwald (link: http://www.salon.com/news/opinion/glenn_greenwald/2009/12/15/gitmo/index.html):

    "The Obama administration announced today that it will create a new "supermax" facility in Thomson, Illinois, and will transfer to it many of the detainees currently held at Guantanamo. Critically, none of those moved to Thomson will receive a trial in a real American court, and some will not be charged with any crime at all."

    Aconselho a ler integralmente os textos que linkei. Elucidam bem da natureza da admnistração Obama.

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