quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sapatos, tomates e igrejas...

Concedo que atirar um calhau à cabeça de um político é um acto de violência condenável. Mas quando a democracia se torna uma anedota e os empresários nos dão a escolher, cada vez mais, entre os fantoches "da esquerda" e os fantoches da direita, parece-me difícil evitar que os empresários e os fantoches passem a ter medo dos cidadãos. Já é assim na América Latina e em todas as ditaduras do mundo.

Nunca pensei acabar a citar o Mao, mas é verdade que não se pode culpar o rio por ser tormentoso e ignorar as margens que o apertam.

Há 10 anos eram tartes: Bill Gates, Jean Chretien, Jacques Delors, Gerrit Zalm e tantos outros políticos e figuras públicas levaram com tartes na cara.

Parece-me sintomático que hoje os protestos sejam mais duros. Muntadar al-Zaidi, o homem que atirou os sapatos a George W, Jeremy Paul Olson, o homem que atirou os tomates a Sarah Palin (hoje o supermercado Costco de Salt lake City tirou os tomates dos escaparates durante a visita dela) e agora este homem, que atirou uma igreja a Berlusconi, são imediatamente aclamados heróis por tanta gente.

A pergunta que me parece lógica no contexto político em que vivemos é quando é que a pobreza e o desemprego vão transformar os sapatos e os tomates em balázios. Os assassinatos políticos do princípio do século XX foram o resultado lógico da miséria e da injustiça social das décadas de desregulamentação, arrogância e enriquecimento indecente que caracterizaram o final do século XIX.

Os oligarcas que compram e vendem os recursos naturais do planeta têm tido uma vida óptima, mas parece-me lícito perguntar se este sistema é sustentável. A maioria parece estar convencida que basta controlar os jornais e as televisões e, como se dizia nos anos Bush, fazer a própria realidade. Mas eu não sei. Os oligarcas que apoiaram a ascensão de Hitler também estavam optimistas nos anos trinta. O avô de George Bush fartou-se investir na Alemanha (inclusivamente na IG Farben). Há uns anos li que o pai de George Bush que tem um projecto para derreter três glaciares no Chile e escavar o ouro que lhe subjaz. E destruir a vida a quem depende dos rios que o glaciar alimenta (70 mil famílias). Os banqueiros da Wall Street continuam a pagar-se milhões de dólares e a advogar a desregulamentação... eu acho que se corre o risco de um dia acordarem num mundo cheio de Gavrilos Princeps, Costas e Buiças.