quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Duas ou três coisas sobre o “caso Berlusconi”

Não posso de forma nenhuma apoiar acções como a de que o primeiro ministro italiano foi vítima. Mas o facto de ter sido vítima deste acto tresloucado não faz de maneira nenhuma de Berlusconi um herói, ao contrário do que afirma Ferreira Fernandes. Herói teria sido se enfrentasse uma multidão adversa. Mas o acto de Silvio Berlusconi ao exibir a sua face ferida e deformada àquela multidão (mesmo se esta lhe fosse maioritariamente adversa) não é um enfrentamento: o ataque de que Berlusconi foi vítima foi, claramente, um acto isolado, de uma pessoa. Não foi nenhum linchamento popular. Berlusconi não se esconder, repito, não tem nada de heróico.
O autor deste lamentável incidente foi identificado e, dentro da sua (in)imputabilidade, foi ou vai ser responsabilizado pelo seu acto. Entretanto parece que o autor já tem mais de 30000 “amigos” no Facebook. Quantos destes “amigos” eram capazes de praticar e dar a cara por um acto destes? Tornar-se amigo no Facebook, escrever em blogues, comentar em jornais é muito fácil. Diz-se que o governo de Berlusconi foi o responsável pelo esmagamento dos protestos de Génova, em 2001. Como tal, quem lá estava “sorri” ao ver Berlusconi “esmagado”. Eu não estava em Génova em 2001, mas estava na Assembleia da República em 1993 (com muitos colegas de curso de membros deste blogue), quando o governo de Cavaco Silva também esmagou brutalmente, sem justificação, protestos contra a lei das propinas. Os subscritores portugueses deste grupo do Facebook também estariam dispostos a atirar uma réplica da Catedral de Milão, ou do Centro Cultural de Belém, a Cavaco Silva, assim que o vissem? (Este não é um apelo à violência, que eu condenaria. É uma questão de retórica.)
Muito interessantes os debates que têm ocorrido sobre o assunto no Cinco Dias e no Arrastão (vale a pena ler os textos e os comentários), nomeadamente sobre o papel do Estado como agente da luta de classes (que eu recuso – o Estado deve ser neutro) e monopolizador da violência. Não se pode “acabar” com a violência, por isso ser “contra” ela não tem muita utilidade prática. Pode ser-se contra a violência indiscriminada e irresponsável – o recurso à violência tem de ser mesmo o último recurso, mas por não podermos acabar com a violência não podemos exluir este recurso. sendo assim, o importante é que quem recorre à violência o faça mandatado pela sociedade, seja sempre identificado e possa ser responsabilizado (ou os seus superiores hierárquicos) pelos seus actos perante a sociedade.

Uma semana depois, vale a pena ler o artigo (premonitório) de José Saramago sobre o "no B-day":

Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos.