segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O bloqueio que o sectarismo pariu

O movimento eleitoral mais significativo, na comparação entre 2005 e 2009, é o meio milhão de votos que o PS perde. O BE ganha 200 mil votos, o CDS apenas 180 mil. A CDU ganha só 14 mil votos, o PSD uns meros 6 mil. De resto, transitam 55 mil votos para a abstenção, e 60 mil para os partidos extra-parlamentares.

Os resultados nos partidos médios representam uma renovação (ambígua) do sistema partidário: os partidos que efectivamente sobem são o BE, que tem 10 anos de vida, e o CDS, que tem mais que ver com o ex-director d´O Independente do que com Freitas do Amaral. O PSD e a CDU têm os líderes mais idosos e, de certo modo, representam dois portugais que já não voltarão: o de Salazar e o de Cunhal.

As especificidades da divisão de votos pelos círculos levam a que o BE, com apenas 35 mil votos a menos que o CDS, tenha menos cinco deputados. E foram esses 35 mil votos que, na realidade, impossibilitaram uma maioria aritmética PS-BE. (À reflexão dos fanáticos do «voto útil».)

A maioria política será conhecida, o mais tardar, aquando da discussão do orçamento de 2010. Se o PS quiser fazer maioria com um único partido, terá necessariamente que se voltar para a direita. Se se voltar para a esquerda, terá que angariar o apoio de dois-partidos-dois sem cultura de poder (e de cedência).

De qualquer modo, a maioria parlamentar é de esquerda. Teoricamente, chegaria para aprovar os casamentos entre homossexuais ou qualquer coisa desse género, mas duvido que o parlamento dure o tempo suficiente. De resto, tudo ficará na mesma, do código laboral à progressividade do IRS, passando pela escola pública (menos Lurdes Rodrigues, que está a arrumar o gabinete).

O que nos deixa com a constatação habitual: o sistema político-partidário português não está divido entre direita e esquerda, mas entre direita, PS e esquerda «radical». A última está, por acordo tácito mútuo e nunca escrito, excluída do poder. (Tem a ver com o 25 de Novembro, como tentei explicar há uns tempos.) Mas isso significa que a esquerda, como um todo, fica coxa. Ou melhor, a divisão funcional não é, realmente, entre esquerda e direita. E não foi por mais de um milhão de eleitores ter votado à esquerda do PS que deixará de ser assim. E portanto, a política real, as decisões que realmente contam, continuarão a ser negociadas no pseudo-centro que não o é, ali entre o PS e a direita.

Nota a reter: como eu apontei, em campanha houve mais ataques da esquerda «radical» ao PS do que da esquerda «radical» à direita. E mais ataques do PS ao BE do que do PS ao CDS. O resultado está à vista, com uma subida do partido mais poupado às críticas, o CDS. Continuai assim. O bloqueio da esquerda portuguesa está para durar.