sábado, 11 de abril de 2009

Luís Amado atrapalhado

Se há coisa que me choca, é a indiferença com que os portugueses olham para o avolumar das provas de que os governos democráticos portugueses, nestes últimos anos, estiveram envolvidos no transporte e eventualmente na tortura de prisioneiros. Eu pensava, na minha ingenuidade, que um dos consensos inabaláveis do regime actual era o repúdio pela tortura, e que a superioridade moral da democracia sobre o salazarizmo passava, em boa parte por aí. Afinal, parece que ando enganado. Há muita porcaria debaixo do tapete da «luta contra o terrorismo». Nesta entrevista de Luís Amado, só não a vê a boiar quem não quer:
  • «Sábado: É uma forma de o Governo lavar a face depois de vários voos da CIA terem passado por Portugal?
  • Luís Amado: Tem as informações sobre a passagem?
  • SAB: O senhor ministro tem as informações?
  • LA: Eu tenho as informações que tenho e não tenho informações sobre a passagem.
  • SAB: Não passou ninguém?
  • LA: Não sei, nem tenho que saber.
  • SAB: Não tem que saber?
  • LA: É óbvio.
  • (...)
  • P: Ana Gomes diz que o Governo está a mentir.
  • R: Isso é o que a Ana Gomes diz.
  • P: Ana Gomes está a mentir?
  • R: É o que a Ana Gomes diz.
  • P: Um dos lados está mentir.
  • R: (Silêncio.)
  • (...)»
E depois descai-se:
  • «SAB: Alguma vez mentiu na actividade diplomática?
  • LA: Um político não pode mentir.
  • SAB: Nunca mentiu durante esta entrevista?
  • LA: Nunca menti. Mas há verdades que um político não pode nem deve dizer em determinadas circunstâncias.
  • SAB: Omitiu alguma coisa?
  • LA: Algumas posso ter omitido
Haverá alguma maneira de mandar um ministro para a choça por ajudar a transportar prisioneiros para serem torturados? Se não há, deveria haver.