sábado, 28 de março de 2009

Justiça ou Caridade

«[...]Como fez a Madre Teresa. Venerada por muitos e criticada por alguns, todos concordam que se dedicou mais do que seria justo exigir-lhe. Mas o seu objectivo era amar os que sofriam e dar uma morte digna aos moribundos. Não investiu os donativos em campanhas de vacinação, em planeamento familiar ou em saneamento básico porque, para ela, aquele sofrimento não eram uma injustiça a corrigir. Era uma sina daquela gente, que merecia pena e amor dos seus semelhantes porque justiça teriam de outra fonte.

Mas sem deuses é diferente. As doenças são infecções, a miséria uma má distribuição de recursos e o sofrimento um mal a remediar. Com justiça, não com caridade. Jeremy Bentham, um dos pais do utilitarismo, no início do século XIX lutou por reformas no sistema legal britânico, defendeu o sufrágio universal, a abolição da escravatura e a liberdade de expressão. Foi um dos responsáveis pela ideia do estado assegurar serviços de saúde e educação e apoiar os mais necessitados da forma que hoje tomamos por garantida.

Bentham, Mill (pai e filho) e outros que os seguiram tiveram um impacto enorme na vida de muitos milhões de pessoas nos países de cultura ocidental. Não por lhes segurarem a mão enquanto morriam mas por corrigirem problemas fundamentais que eram fonte de tanta miséria. Foi por causa destas pessoas que a Madre Teresa foi "de Calcutá" e não "de Londres" ou "de Lisboa". E nenhum fez mais que a sua obrigação, aquela responsabilidade básica de perceber e combater a injustiça.
[...]»

Justiça ou Caridade., no Que Treta!