sábado, 21 de março de 2009

Indignação

Recebi um email do Instituto da Democracia Portuguesa com uma mensagem do Sr. D. Duarte que falava do património português.

Parece-me inacreditável que o Sr. D. Duarte se atreva a falar do património português, quando a empresa Arqueonautas SA, da qual ele foi presidente, continua a destruir os restos arqueológicos de um número desconhecido de naus da India em Moçambique, algumas das quais primorosamente preservadas.

O Sr. D. Duarte não emite nem um pio sobre este assunto.

As naus da India eram dos navios mais sofisticados construidos no mundo, no tempo delas. São páginas preciosas da história da ciência e da tecnologia e foram os veículos da expansão europeia do século XVI. Destruir estes sítios arqueológicos, raríssimos e talvez os últimos no mundo, é um crime de selvajaria inenarrável. E para quê? Para sacar as porcelanas e os lingotes de ouro, ou as moedas. Reduzir estes sítios arqueológicos, que são os túmulos de centenas de marinheiros, soldados, mercadores e missionários, revirar-lhes os ossos para sacar uns cobres, é um crime bárbaro, de ganância, de ignorância e de uma boçalidade difícil de descrever.

Como é que uma pessoa que defende a destruição e a venda das páginas mais notáveis e mais nobres do nosso passado se atreve a falar do património?

Na semana passada estive reunido com um pequeno grupo de cientistas na Texas A&M University, e todos se espantaram com a qualidade das naus da India, como navios de guerra, de carga, e como "máquinas de habitar" que abrigavam mais de 400 pessoas durante mais de seis meses, navegando ao longo da rota mais longa e mais perigosa do mundo no tempo delas. E todos lamentaram que só os restos exíguos da presumível "Nossa Senhora dos Mártires" tenham sido estudados por arqueólogos.

Defender a destruição sistemática dos tesouros únicos que a empresa Arqueonautas está a destruir em Moçambique, por uns míseros cobres ( a empresa Arqueonautas SA nem sequer tem lucros dignos desse nome), reduzir estas cidades flutuantes, que abrigavam a coragem, os sonhos e a competência extraordinária de tanta gente, a umas porcelanas e a uns lingotes, é uma actividade tão ignóbil, tão mesquinha, tão repugnantemente miserável, que revela uma ignorância tão chã e tão desgraçada, que me parece que o Sr. D. Duarte não devia proferir nunca a palavra património sem se envergonhar.