segunda-feira, 23 de março de 2009

Caça aos tesouros

Uma das consequências mais tristes do salazarismo foi a cultura de desrespeito e incompreensão que o Estado Novo imprimiu (continuou, se quisermos considerar o livro magistral de Ramalho Ortigão "O culto da arte em Portugal") e que se baseou numa concepção da História disparatada e ignorante.

As publicações da DGEMN atestam eloquentemente a destruição incompreensível do património, que se queria que parecesse românico: as ameias inventadas, as talhas arrancadas, os ajulejos picados, tudo para fazer as igrejas e os castelos mais medievais do que eles alguma vez tinham sido.

O resultado, 35 anos depois do 25 de Abril, é o deserto das ideias. Anedotas em vez de História. Pastiches e anastiloses em vez de monumentos. O património ao sabor das conveniências dos empreiteiros.

Com raríssimas e honrosas excepções (como o Museu de Marinha) Portugal tem talvez os museus mais pobres, mais tristes, mais miseráveis e mais vazios da Europa ocidental (e deve ter mais estádios de futebol per capita do que o resto do mundo!)

Isto não é por acaso. Howard Zinn disse muitas vezes que se não conhecermos a nossa história temos de confiar nos nossos políticos. A recente promoção do ditador Oliveira Salazar é um reflexo da ignorâcia triste e desgraçada de quem já não sabe que em 1960 Portugal era um sovaco mal cheiroso, sem sapatos, nem dentes, nem estradas, nem escolas, governado por seminaristas que tinham ido para o seminário para fugirem à fome.

A indiferença com que os sucessivos ministros e secretários de estado da cultura (com excepção do Dr. Manuel Maria Carrilho) tratam o património subaquático é uma vergonha nacional.

Não são só os navios - absolutamente preciosos - que a empresa Arqueonautas SA está a destruir em Moçambique. São os restos do navio encontrado na estação do Cais do Sodré, nas obras do metropolitano de Lisboa, cujas madeiras foram salvas pelo empreiteiro e deixadas secar e apodrecer pelo IPPAR. São as madeiras da nau de S. Julião da Barra, que ninguém se deu ao trabalho de manter molhadas e que se perderam, são os restos dos navios que continuam a saque na nossa costa sem que o estado tome medidas minimamente eficazes, ou o património subaquático português espalhado pelo mundo, que se encontra ao abandono.

Os espanhóis implementaram uma política agressiva e consequente (tarde, mas mais vale tarde do que nunca) e eu garanto que dentro de poucos anos vão ter um afluxo de turistas enorme para ver os museus deles.

Em Janeiro passado, numa reunião em Toronto, disseram-me que o navio 'Vasa' rendeu no ano passado mil milhões de eutros em receitas turísticas. O museu de arqueologia náutica de Bodrum é um dos museus mais visitados da Turquia. Mas os portugueses deixam os caçadores de tesouros rebentarem os restos dos navios afundados para venderem as porcelanas, as moedas e os lingotes.

Em toda a Europa (e nos EUA) se considera que o património é uma parte importante da identidade dos povos e a história é uma referência fundamental para a cidadania e a democracia. Menos em Portugal.

Os comentários dos anónimos aos textos escritos neste blog sobre este assunto são absolutamente confrangedores e ilustram eloquentemente o meu ponto de vista.

E se estes são os vossos melhores argumentos (sobretudo o comentário do anónimo que acha que eu devo "ser um falhado que quer publicidade a todo o custo") não dão grandes motivos para orgulho ao movimento monárquico português. Acho eu.

http://nautarch.tamu.edu/shiplab/index_indianau00.htm