quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Religião e sociedade - II

Sou da opinião que a inexistência de Deus não implicaria necessariamente que as religiões em geral seriam nefastas para a sociedade.

Mas sou da opinião que existem várias razões para acreditar que são. Vou expô-las nos próximos textos desta série, mas antes gostaria de abordar as razões que habitualmente são apresentadas para defender que as religiões seriam virtuosas mesmo que Deus não existisse.

Começarei por abordar a questão da moralidade em geral.

Há quem argumente que Dostoiewsky tinha razão quando escreveu «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Sem Deus, alegam, não existe fundamento, razão ou motivação para a moral.

Geralmente os ateus respondem a esta argumentação com alguma revolta. Acham algo mesquinho que alguém acredite que não existe qualquer justificação para o altruismo fora da vontade egoísta de ser recompensado depois da morte. Ou então lembram que o Deus de muitos crentes, a avaliar pelos escritos sagrados, não parece ser o mais nobre dos agentes morais. Que para se fazer uma leitura decente e civilizada dos textos sagrados é preciso ir buscar os valores civilizacionais a algo exterior a esse texto, para então fazer uma interpretação que distorça a sua mensagem ao ponto de esta não ser completamente bárbara. E por fim alegam que colocar Deus como fundamento da moral apenas tira a responsabilidade de escolher qual a moral por que se deve reger a cada indivíduo, sobrando ainda o problema de fundamentar a moralidade desse suposto agente moral a que chamam Deus.

Todas estas são discussões interessantes, mas para o efeito deste texto creio que é mais relevante procurar dados empíricos que possam indiciar se a alegação religiosa segundo a qual Deus é importante para a moralidade faz o seu sentido.

Sobre este assunto, escrevi há uns anos um texto que agora reproduzo:

«Causas sociais do Ateísmo

Foram feitos vários estudos, pela parte de diferentes autores, tendo como por objectivo determinar a percentagem de ateus nos diferentes países do mundo. Phil Zuckerman compilou os dados de muitos desses estudos para produzir um trabalho denominado «Atheism: Contemporary Rates and Patterns» («Ateísmo: Taxas e Padrões Contemporâneos»)
Depois de uma extensa exposição de todos os estudos de opinião em que se baseou (cerca de uma centena), Zuckerman elabora uma lista de países por ordem da percentagem de ateus que existem. Zuckerman também deixa claras todas as ressalvas relativas aos vários erros que podem ocorrer nos diferentes estudos de opinião. Na Arábia Saudita a percentagem de ateus está provavelmente sub-estimada, e na China estará sobrestimada, por exemplo. De qualquer forma, Zuckerman tira conclusões do vasto conjunto de dados que apresenta acerca da explicação que pode existir para as elevadas taxas de descrença. Vou traduzir parte dessas conclusões:

«O que é que causa a gritante diferença entre as nações em termos da taxa de descrença? Porque é que quase todas as nações de África, América do Sul e Sudeste Asiático contêm quase nenhum ateísmo, mas em muitas nações europeias os ateístas existem em abundância? Há numerosas explicações (Zuckerman, 2004; Paul, 2002; Stark and Finke, 2000; Bruce, 1999) Uma teoria liderante vem de Norris and Inglehart (2004), que defendem que em sociedades caracterizadas por uma plena distribuição de comida, excelente serviço público de saúde, e habitação globalmente acessível, a religiosidade esvai-se. [...]
Através de uma análise das estatísticas globais actuais de religiosidade em relação à distribuição do rendimento, equidade económica, gastos com a segurança social, e medimentos básicos da segurança ao longo da vida (vulnerabilidade quanto à fome, destares naturais, etc...) Inglehart e Norris (2004) defendem convincentemente que apesar de numerosos factores possivelmente relevantes para explicar a distribuição mundial da religiosidade, «os níveis de segurança da sociedade e do indivíduo parecem constituir o factor com mais poder explicativo» (p. 109). Claro que, como em qualquer teoria social abrangente, existem excepções. Os incontornáveis casos do Vietname (81% de descrentes) e da Irlanda (4-5% de descrentes) não correspondem ao que se esperaria através da análise de Inglehart e Norris.»

O autor acaba então por fazer uma distinção entre ateísmo orgânico: aquele que surge naturalmente nas sociedades sem qualquer encorajamento por parte do regime político, e o «ateísmo coercivo» que surgiu pela imposição política. Encontra então uma enorme correlação entre o ordenamento por ateísmo orgânico e o ordenamento por desenvolvimento humano. Mostra também que os países com maiores taxas de homicídios são todos extremamente religiosos.Fica por explicar a excepção que a Irlanda constitui. Mas para mim, essa excepção é muito natural. A Irlanda é um país rico há pouco tempo, e a sociedade ainda não se adaptou a essa riqueza. Dentro de uns anos, parece-me, até a própria Irlanda confirmará esta tese.»

Se não compararmos os diferentes países do mundo, mas sim vários dos estados dos EUA podemos comparar sociedades relativamente semelhantes, mas onde o grau de religiosidade pode variar significativamente.
São muito citadas as estatísticas das prisões federais (Denise Golumbaski, Research Analyst, Federal Bureau of Prisons, compiled from up-to-the-day figures on March 5th, 1997), segundo as quais 0.21% dos prisioneiros é ateu. Isto num país em que os ateus, conforme os diferentes estudos, estão entre os 4% e os 13% da população.
Mas mais curioso ainda que essas estatísticas é verificar que entre os estados mais religiosos dos EUA (a chamada «Bible Belt») estão 6 dos 7 estados com maior criminalidade, com especial destaque para o Louisiana, o estado com maior taxa de religiosidade praticante, que tem o dobro da taxa de homicídios.

Não quero usar estes resultados para afirmar que as pessoas religiosas têm maior propensão inata para a crueldade ou para a violência. Creio que a religião não encoraja ninguém a fazer aquilo que essa pessoa vê como o «mal». Grande parte da explicação para esta correlação entre religiosidade e propensão para o crime reside no facto de serem aqueles que têm menos instrução os que têm maior probabilidade quer de ir parar à prisão, quer de serem muito religiosos.

Mas estes resultados também desmentem decididamente a tese do colapso moral sem religião. E outra coisa não seria de esperar, visto que as raizes da moralidade encontram-se na selecção natural. O homem tem instintos morais, os quais devem ser domados pela razão para que sejam mais profíquos nas suas consequências. Se Deus não existir, a religião é uma superstição que atrapalha um pouco a moralidade, pois faz com que a discussão e evolução moral seja, mais do que influenciada pela discussão crítica e racional entre os diferentes agentes, também constrangida por superstições sem fundamento.