quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Os professores

Estou mal informado sobre este assunto.
Como estou sobre outros.

É impossível a um eleitor estar devidamente informado sobre todos os assuntos respeitantes à governação e à política. No entanto, na altura do voto cabe-lhe avaliar os partidos e o governo o melhor que pode.
Claro que tem o dever de se tentar esclarecer, e perder algum tempo da sua vida a informar-se sobre as diferentes questões em jogo. Mas por muito tempo que perca numas, vai sempre ter informação insuficiente sobre outras.
Para isso, o eleitor acaba por ser forçado a usar heurísticas: formas de raciocinar que lhe permitem formar uma opinião, mesmo com informação incompleta. As heurísticas podem ser mais ou menos sofisticadas, mas são sempre falíveis. Podemos ter mais ou menos confiança neste indivíduo ou naquele pela avaliação de situações passadas, podemos ter em linha de conta quais são as partes interessadas, quais são as dinâmicas usuais de comportamento, etc... O importante é que exista sempre alguma abertura para corrigir uma opinião baseada em heurísticas se melhor informação revelar que esta era errada. Assim sendo, passo a expôr as minhas impressões sobre esta questão dos professores, num convite a que me esclareçam melhor se estiver errado.

1- Seria bom que passasse a existir um sistema de avaliação sério. Progressões automáticas, ou um número ilimitado de lugares de topo não cumprem este requisito. Os lugares de topo não precisariam de ser fixos por escola, mas o seu acesso teria de ser sempre de tal forma restrito que na prática só uma percentagem reduzida dos professores lhe pudesse aceder.

2- Uma crítica que me parece algo legítima que os professores fazem a este sistema é relativa à avaliação por pares, e toda a "politiquice" envolvida. O ideal seriam critérios objectivos. Será possível medir o mérito desta forma? Se sim, como seria isso feito? Parece-me disparatado medir o mérito quase exclusivamente pela auto-avaliação. Posto isto, existe alguma proposta em cima da mesa que cumpra o requisito 1 e que ultrapasse este problema?

3- Uma crítica que me parece algo legítima que os professores fazem refere-se ao peso dos encarregados de educação na avaliação. Tanto quanto descobri, este peso é muito reduzido. É defensável que não devia ser nenhum. Mas não estamos a falar de um problema grave, sendo o peso tão reduzido.

4- Uma crítica que me parece algo legítima que os professores fazem diz respeito à necessidade de passarem muitos alunos. Alega-se que promove o facilitismo, e premeia os professores que são mais generosos na altura de dar as notas, e não aqueles mais rigorosos.

4.1- Por si, parece disparatado que o professor seja avaliado pelas notas que ele próprio escolhe dar. Isto é como premiar um juiz quando absolve os arguídos - assim ele torna-se parte interessada no julgamento em curso, e a justiça fica comprometida. A ser assim, os professores têm toda a razão neste ponto. Será que eu percebi mal?

4.2- O senso comum diz-nos que em Portugal existe um grande facilitismo. Esta forma de avaliação é acusada de agravar este problema. Mas os números e os estudos aprofundados desmentem o nosso senso comum. Há argumentos sérios e bem estruturados que podem ser usados para sustentar que em Portugal não existe retenção insuficiente, mas sim excessiva. Isto foi uma surpresa para mim que acreditava que um dos nossos grandes males era o facilitismo. Creio que grande parte dos professores acreditam que é, mas podem estar equivocados. De qualquer forma, mesmo pretendendo encorajar os professores a alterar as suas taxas de retenção, a avaliação de professores não deve ser usada com esse objectivo. É possível defender que a generalidade dos professores devia aprovar mais alunos, mas é disparatado assumir que os melhores professores aprovam mais do que os piores.

5- Um aspecto muito positivo deste sistema de avaliação é que a assiduidade é tida em linha de conta. Já aumentou significativamente. Este é um aspecto a manter.

6- As críticas mais disparatadas que oiço por parte dos professores são aquelas que dizem respeito à "forma" como são tratados pela ministra. Se dão importância a este aspecto, perdem toda a razão. Sempre que leio entrevistas de Maria de Lurdes Rodrigues, ou a oiço a falar, parece-me que tudo aquilo que diz é uma exposição do seu ponto de vista perfeitamente normal. Geralmente algum tempo depois vejo os sindicatos indignados com uma expressão qualquer que ela usou, a "falta de respeito", a "arrogância", etc... Quase que dá a impressão de se terem de discutir a forma por não quererem discutir o conteúdo.

Conclusão: não me parece difícil de acreditar que este modelo de avaliação é mau. É o primeiro que cumpre o critério exposto em 1, e para que uma mudança desta envergadura saia bem não é estranho que se tenham de dar muitas voltas.
Aquilo que eu gostaria de ver seria um conjunto de propostas alternativas bem estruturadas, que conseguissem o apoio de grande parte dos professores, que obedecessem ao critério 1, e não descartassem o aspecto 5. Seria uma excelente oportunidade para que o nosso sistema de ensino melhorasse significativamente.