terça-feira, 28 de outubro de 2008

Novos tempos. Novas vias?

  • Manuel Alegre: "Que fazer agora? Os defensores do Estado mínimo, ideologicamente derrotados, pedem a intervenção do Estado. Para quê? Suspeita-se que para manter o que está e socializar as perdas. O problema é que, se tudo ficar na mesma, as mesmas causas produzirão os mesmos efeitos. (...) A esquerda tem de integrar e debater, no seu pensamento próprio, os princípios e os instrumentos possíveis de regulação da globalização: o combate à predação das multinacionais que localizam e deslocalizam investimentos a seu bel-prazer, a taxação das transacções financeiras internacionais, a abertura dos mercados dos países desenvolvidos às exportações oriundas dos países em vias de desenvolvimento, a travagem da proliferação dos off-shores, o combate à economia 'suja' dos tráficos de pessoas, drogas e dinheiro, o combate à exploração de mão-de-obra infantil, escrava ou sem quaisquer direitos sociais, e à degradação ambiental. (...) Uma nova esquerda só poderá nascer de várias rupturas das diferentes esquerdas consigo mesmas. Ruptura com as práticas gestionárias e cúmplices do pensamento único. Ruptura com a cultura do poder pelo poder e com o seu contrário, a cultura da margem pela margem, da contra-sociedade e do contrapoder."
  • Mario Soares: "Como já escrevi nesta coluna, não basta injectar dinheiro, muito dinheiro - como tem sido feito - para a crise ser debelada. Porque a especulação continua e há gente a ganhar muito dinheiro com a crise. A crise é sistémica - é preciso que as pessoas tomem consciência disso - foi o neoliberalismo que entrou em falência e a globalização desregulada, os paraísos fiscais e a especulação desenfreada que daí decorrem e continua. Portanto, não é voltando a encher os bolsos aos maiores responsáveis que podemos resolvê-la. É preciso uma mudança também global do sistema, mudar o modelo económico - o capitalismo na sua fase financeira e especulativa, de tipo virtual - para voltarmos à economia real, com os pés fincados na terra, lutando contra as desigualdades sociais, a pobreza e em defesa do planeta, ameaçado. (...) O socialismo democrático, que trouxe à Europa a paz - e os "30 gloriosos" anos de crescimento económico, em liberdade e bem-estar para todos -, foi de algum modo "colonizado" pelo neoliberalismo. Está hoje sem rumo e sem lideranças. É por isso que precisa de ser repensado - e está a sê-lo, por toda a esquerda europeia, social, sindical e partidária. Poderá ser uma luz ao fundo do túnel, para as nossas angústias, se houver diálogo, espírito de tolerância e de bom senso, entre todas as correntes que se reclamam da esquerda, moderada e radical."