quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Arrojadamente

Parece que Pedro Arroja escreverá em breve no Blasfémias, o que levou a Fernanda Câncio a colocar no Glória Fácil uma entrevista de 1994 com o arrojado Arroja. Deliciai-vos:

  • Sobre o direito de comprar e vender votos: «Arr. Mas é precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados? F.C. E o que é que produzia o voto vendido? Arr. Produzia votos esses sim em consciência, porque eu para comprar três votos para um partido tinha de ter grande apreço por ele.» Eu já estou informado de que a propriedade privada é mais importante do que a democracia, como repetem dia-sim dia-sim os blogues liberalistas. Transformar o eleitorado em propriedade privada é que é coisa que nunca tinha lido, nem nos dias maus do João Miranda. Proponho que se vá ainda mais longe, e que não se venda apenas o voto mas também o direito de voto: contratos para toda a vida em como fulano passa o direito de voto a sicrano, de acordo com renda actualizável pela inflação. Que tal?
  • Sobre a escravatura: «Arr. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra. F.C. Ah não? E quem é que os levou para lá? Arr. Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo. F.C. Para começar a terra era dos Indios. E está-se a esquecer do pequeno pormenor da escravatura. Arr. Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros.» Nesta parte, nem sei o que é pior, se a aparente ignorância histórica (que transforma o tráfico de escravos em emigração voluntária) se o racismo que emerge de sob o fino verniz liberalista. De qualquer forma: os negros americanos não estão na terra deles. Adivinha-se qual será a opinião de Arroja sobre os cabo-verdianos nascidos na Amadora ou sobre os ingleses do vale do Douro...
  • E mais ainda: «Arr. o trabalhador escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador negro. F.C. E já se perguntou porque é que ele seria duas vezes mais produtivo? Arr. Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico.». Fantástico, Melga. Fantástico, Mike. Os pretos trabalhavam o dobro porque se não o fizessem eram chicoteados até à morte. Que importa isso? Arroja responde: «Arr. Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos.» Ora aí está: a prosperidade económica tudo desculpa, até a própria escravatura. Liberalismo: propriedade privada como valor acima de tudo o resto, incluindo as liberdades individuais e a própria vida humana. Já ouvi isto em qualquer lado...

(Outros blogues que escreveram sobre o fantástico e liberalíssimo Arroja: Arrastão, o Avesso do Avesso.)

9 comentários :

  1. onde é que uma pessoa se pode inscrever para poder dar um murro nesse tipo? ;-)

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  2. as facções mais deasvergonhadas dos «libertários» defende descaradamente a escravatura, a que chamam voluntaria...

    tipo, se eu quiser vender-me a mim mesmo a alguém como escravo, é meu direito como ser livre alienar a minha liberdade mesmo sem hipóteses de a recuperar.

    as pessoas andam a dormir, perante o pensamento totalitário desta gente.

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  3. Eu tenho uma visão do mundo que se pode considerar "liberal" e não me revejo nas palvras deste senhor. Por isso, Ricardo, cuidado com as generalizações.

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  4. CMF,
    o Rui Albuquerque do Blasfémias é que apresentou este senhor como o «maior defensor da liberdade» em Portugal; e o João Miranda também jura que o Arroja é liberal.
    Mas enfim, no fundo esses são autoritários de direita que se declaram liberais por razões de modelo económico. Raio de destino para uma palavra com tão boas tradições em Portugal...

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  5. É falso que o Sul tenha prosperado mais que o Norte...

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  6. Ricardo,

    Esta entrevista é real?? É que parece tão alucinada que dá para duvidar.

    Se isto é representativo das opinião desta pessoa então realmente de liberal tem pouco (nada).

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  7. Pedro,
    a entrevista é real. Podes ler a versão completa no Glória Fácil.
    (Eu lembro-me de ler a entrevista nos anos 90, e mesmo na altura deu escândalo.)

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  8. Pedro fontela:a entrevista é real.

    Eu tenho outra peça do senhor em que o eduardo prado coelho desmonta completamente outra coisa que ele disse nos final dos anos 80 acerca da pobreza.
    Que é hilariante e do mesmo estilo dessa entrevista citada pela senhora sócrates cancio.

    Basicamente ele - o arroja - achava que um pobre para deixar de ser pobre, entre várias coisas estratosféricas, uma delas era a de que "deveria desenvolver o pensamento abstracto e deixar-se de mundanidades".
    ( tradução:ler os economistas neo liberais e deitar o kamasutra para o lixo.)

    Ou seja, o pobre que esteja a viver dos caixotes na rua, como eu vejo alguns no sitio onde vivo, em vez de procurar comida nos caixotes deve antes ler kant e hegel e , dessa forma, deixará de ser pobre após compreender o sistema hegeliano e os prolegómenos kantianos.

    O arroja explica-nos como isto é simples: nós é que somos demasiado broncos para compreender o visionarismo esclarecido do homem...
    O liberalismo ...... peculiar ......luzídio ......
    flurescente e irísdescente daquela criatura.

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  9. desculpem lá mas eu conheço o dr PA e está entrevista está completamente alterada da verdade. um bom jornalista tem que seguir a risca o que o entrevistado diz mas esta senhora nao é capaz de fazer uma simples entrevista e tenta fazer passar por louco um senhor que tem ideias muito bem formuladas. sabem, quando estes jornalistas nao gostam de alguém fazem de tudo para essa pessoa ficar mal vista. é por isso que o país está no estado que está. com jornalistas deste género, que nao sabem transmitir a verdade e o que foi realmente dito, como é que o país pode evoluir?!

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